08 agosto 2009

O que ando fazendo?

Bem, essa é a uma pergunta que tenho feito a mim mesma. Que tenho feito por aqui? Tenho feito tudo o que posso fazer? Estou muito dentro ou muito além das minhas possibilidades?


Essa semana, especialmente, cuidei de alguns documentos que precisava mandar para conseguir a tão esperada bolsa de estudos. Torçam por mim, para dar tudo certo e eu recebê-la!
Afinal, se ela não der certo, vocês serão atormentados por pedidos em diversos meios de comunicação pedindo, encarecidamente, alguns centavos pra financiar meus estudos aqui... haha. Já até preparei os boletos!


As pessoas deram um pequeno sumiço da Cité Universitaire. Os franceses foram viajar, a Bea (a amiga espanhola de quem fiquei mais próxima) voltou para Madrid, muitos viajaram. Ao mesmo tempo, o mexicano que morava no 1o adar mudou-se para o Oitavo Céu (hehe). Ele é muito bacana, mas fica geralmente no seu quarto e só o encontro na hora que ele sai para comer. Tenho me aproximado da Heidi, uma colombiana que estava viajando e voltou há pouco tempo, mora aqui no nosso andar. Muito bacana e prestativa. Ela, como eu, tem dupla nacionalidade e me ajudou em algumas coisas com a bolsa. Pudemos conversar melhor nos últimos dias - ela tem um caso amoroso com um suíço. Uma história que não deixa de ser bacana... Os dois se conheceram aqui na Suíça há 5 anos atrás, num curso de francês, no qual ele era o professor. Quase 30 anos mais velho, que é justamente o que mais a incomoda. Acabaram de romper a relação, o que deu brecha para conversarmos melhor. Pena que ela também partiu no final de semana. Foi visitar uma colega numa cidade vizinha, mas volta amanhã.


Ontem passei por uma experiência muito bacana. Outros dois colombianos, amigos de Heidi, estavam por aqui. Um pegou o violão, começou a cantarolar "Garota de Ipanema", tocou uns acordes, o outro começou a cantar... e assim fomos! Eles conheciam muitos clássicos da bossa nova e outras coisitas más!

E tudo isso justamente no momento em que tenho ouvido muita música brasileira e lido "Antonio Carlos Jobim - uma biografia", de Sérgio Cabral, livro que ganhei antes de vir para cá. É fato que eu sempre gostei da história da nossa música e sempre me interessei por sso, mas também é fato que, quanto mais se está longe do seu país de origem, mais se valoriza alguns de seus aspectos. Pessoalmente, não iria tão longe a ponto de chamar esta sensação de nacionalismo, mas simplesmente de identidade, o processo de identificação a partir de algum aspecto que lhe seja pessoal - a linguagem e os termos em português, o ritmo e a melodia, o refrão...
Afinal, a nacionalidade faz parte da identidade pessoal. Acredito que isto dependa, em certa medida, da escala de aproximação que possas ter com sua cultura (apegos ou desapegos com hábitos)... mas somente em certa medida. A nacionalidade tem seu peso com a identidade, principalmente quando se está fora do território.


Tenho bicicletado também. A prática de atividade esportiva, por aqui, é muito frequente. Com certeza, a paisagem daqui colabora - e muito - para essa prática, rs. Nadar é outra coisa ótima para fazer nesse lago.... ou, ao menos, até o clima esfriar (o que não vai tardar a acontecer!)


Hoje, com um tempo um pouco obscuro lá fora, não tenho muita coisa a fazer que não seja ler e ficar no computador. Gosto dessas atividades, mas confesso que fazê-las fechada num quarto sem ter muitas opções pode não ser o mais adequado...


E o que eu fiz no final de semana passado?

Primeiro de Agosto, feriado em comemoração ao tratado que transformou a Suíça em Confederação, há alguns séculos atrás. Sábado, feriado nacional, todo comércio fechado (aqui tudo fecha MESMO!). Passamos a tarde no lago, banhamo-nos. Voltamos pra casa, preparamos uma pizza, uma salada, acompanhado com vinho. Depois, pegamos nossas latinhas de cerveja e fomos ao rumo do lago. A partir das 22hrs, acontece o tradicional espetáculo de fogos de artifício, no lago. Um verdadeiro espetáculo. Parecia 31 de dezembro no Brasil. Calor, um monte de gente, todo mundo se dirigindo ao litoral, sorrisos nos rostos, beira do lago, fogos de artifício.


Depois continuamos a beber, e coisa e tal, e tal e coisa.... surge a vonade de ir ao banheiro. Como entrar num restaurante só para usar os toiletes não deu certo, seguimos em rumo ao hotel onde Ali, o turco, trabalha, na própria recepção.



Fotos em conjunto: Eu, Géraldine (suíça), Bea (a espanhola que partiu), Heidi (a colombiana que me ajudou nos documentos) e Christophe, um suíço.



E, só pra terminar a pergunta inicial do texto, vou deixar a deixa da resposta para um trecho da biografia de Tom Jobim.


Orquestra da Rádio Nacional, onde Tom Jobim trabalhou por algum tempo com Radamés Gnattali, um dos grandes maestros da nossa música, muito admirado por Tom. Radamés convidou-o para reger esta Orquestra numa noite carioca e Tom, muito nervoso (afinal nunca tinha regido sozinho uma orquestra, tampouco uma cheia de músicos renomados), fez lá seus errinhos e ficou branco como a neve. Um tempo depois, os dois recordaram-se da noite, e Radamés disse:


"Tom estava na fossa e eu também já havia passado por essa fossa. Ela foi me pedir conselho e eu disse: "Tom, ninguém vai te ensinar nada. Isso também já aconteceu comigo. Deixa sair o que tem dentro de você, e ponto. É só isso. Se você ficar prendendo, não vai acontecer nada. Não precisa procurar ninguém, porque ninguém vai te ensinar coisa nenhuma."


Bom final de semana a você!

04 agosto 2009

“Quando bate uma saudade...”


Cabeça vazia. Tento escrever, mas nada consigo expressar. Decido me levantar, mas me sinto leve, leve de quem deixou algo cair. Não há nada na superfície em que deitava; bato nos braços, nos joelhos e confirmo: tudo está no seu lugar. Que me falta? O choro vem; talvez fosse ele quem tentava me avisar para parar, quem me suplicava para ficar. Ali fiquei, intacta, e perguntei-me o porquê: por que chorar?
Tentei buscar na memória qualquer razão que justificasse tal expressão. Um filme rodou, imagens de diferentes momentos se passaram, mas nenhum quis parar ali – talvez nenhuma daquelas imagens fizessem parte daquele sentimento –este talvez de perda, ou ainda de vazio, ou qualquer coisa que me faltasse...
Nenhuma pessoa, nenhum problema, nenhum momento, nada. Talvez o vazio fosse tão grande que nada seria suficiente. Mas essa é uma idéia do Romantismo, que tenho eu a ver com esse movimento? Desde quando dependi do “tudo ou nada” do “cheio ou vazio”? Desde quando eu aprendi a dizer “sim” ou “não”, a ser absoluta desta forma?
Ah, Michèle, pára de brincar comigo... Eu conheço a ti muito mais do que si mesma. Meu sentimento por ti é tão nostálgico que nunca deixo de passar mais um tempo com você. Quando você me conta, em tom de reclame, tuas pequenas memórias de criança, das tuas sensações de dançar Beatles em frente à janela, ah, isso me emociona demais! Tanto que relembrá-las é tão especial pra mim quanto pra você. E daquela musiquinha em francês, como é? Plus vite, chauffeur, plus vite, chauffeur, plus...
Você de novo? Bah, por isso que eu tô assim, eu já devia prever. Já tivemos uma conversa séria esses tempos, eu te disse, cheguei a um ponto que não me interessa mais o nosso passado. Foi bom, obrigada, mas já passou o tempo de estar contigo, e...
“... e você quer descansar e acha que está na hora de progredir e ficar comigo significa regredir e...” qual é o próximo argumento, mesmo? Ah, que você precisa ficar sozinha, né? É isso, que a solidão vai te fazer bem e o presente é a única coisa que você poderia garantir a si mesma... Ótimas as suas razões! Elas realmente me tocam profundamente, adoro seu jeitinho de falar e de concluir essas coisas! Enfim, gosto tanto que volto aqui só pra te ouvir falar tudo isso de novo! É uma música, só faltava o solo de piano no “foi bom, obrigada, mas já passou...”
Você já entendeu tanto, você até já decorou o que eu tenho para falar, agora me deixa seguir à frente, deixa?
Só se você me der qualquer razão que você ainda não me deu. Uma dessas bem geniais que você adora criar!
Ouvi algumas coisas de ti por aí que não gostei...
Ah, é? Que eu saio por aí fazendo alguém chorar? Hahaha, conta outra, eu faço é nada demais...
Você aparece e insiste em ficar, principalmente quando quer ser esquecido.
Óbvio! Se quero ser esquecido, é porque sou lembrado demais; se muito sou lembrado, alguma coisa faço sentir; você, ao menos, consigo fazê-la rir. É mal?
Mas você não me leva a lugar algum! Me conta, que fizemos desde os últimos tempos que você surgiu? Andamos pelos mesmos caminhos, talvez em círculos? Sentimos os mesmos sabores, obviamente inesquecíveis, mas pô, são os mesmos!! Você só me faz reviver tudo o que já vivi; dificilmente foram coisas ruins, mas eu quero viver coisas novas! E, sempre quando começo a conseguir, você resolve surgir e me tomar desse jeito, me jogar na cama, e...
E...? Que mal tem? Quem disse que algo melhor te espera?
Não procuro algo melhor, você sabe que odeio essas comparações! Só quero algo diferente, só quero mudar, só quero outras paisagens, sensações e...
Você sabe que, no fundo, toda novidade é um outro formato do passado. Um passado revisitado, nada mais que isso.
(silêncio)... Você não desiste dessas frases com efeito que sempre me deixam a pensar, hein? Mas o efeito é só um efeito, como filmar uma pessoa amarrada em fios e fazê-la voar num monitor de computador... Não me impressiona mais!
Existem diferentes maneiras de fazer uma pessoa voar numa tela de computador, uma mais surpreendente que a outra. Se eu desistir, nunca vou encontrar uma melhor forma de causar um bom efeito. Ok, eu sou compreensivo, Michèle. Por mais que você não acredite, eu sei o que você sente, eu sei o que você quer. Confesso, não penso que você conseguirá construir-se sem a minha presença, simplesmente porque faço parte de ti tal como fazes parte de mim. Mas sei que você vai tentar mais e mais e preciso te deixar, para que sinta falta de mim e assim revisite o seu passado com “eu” omitido. É difícil, é difícil querer voltar e não poder, simplesmente por desejar seu bem, por almejar que sigas seu caminho, por aguardar um bom percurso. Não consigo imaginar uma vida diferente da que tínhamos juntos; porém, essa é a minha condição. Nada posso fazer. Saudade se constrói com saudade, e sua hora de se desvencilhar de mim já chegou...
Ah, se você não se chamasse Saudade... Ouça apenas meu último pedido: fica só essa noite?


La Nuit Etoilée, de Vincent Van Gogh. Musée d'Orsay, Paris